terça-feira, 1 de janeiro de 2008
terça-feira, 1 de maio de 2007
Pro seu Governo
Essa expressão sempre me fez rir. Na verdade só comecei a rir dela depois de ler Papillon, livro autobiográfico de Henri Charrière. Se você acha que o governo é muito duro e judia dos coitados dos cidadãos, você seria levado as lágrimas ao saber pelo que passam os presidiários dessa historia para agüentar o governo, algo que eles chamariam, com razão, um mal necessário.
Trata se da história de um homem injustamente condenado a uma prisão perpétua, pelo suposto assassinato de sua esposa. Ele passa a planejar e fugir diversas vezes de todas as prisões que o colocam. Mas durante todo esse tempo ele tem que agüentar o “governo”, um tubo metálico projetado com o propósito de guardar seu dinheiro para negociações na cadeia e para as fugas.
Se você ainda não percebeu a razão do formato cilíndrico do “petit portefeille”, vá pra cadeia e tente guardar teu dinheiro no bolso. Meu amigo, a única saída pra você é o teu bolso intracutâneo embutido. E lá vai o governo.
Não poderiam batizar a coisa com nome mais apropriado. Basta lembrar a primeira coisa, palavrão, ou melhor, a primeira expressão que sai de sua boca quando está falando do governo: “ah, porque o governo só... a gente”; “esse governo é um baita... no...”. Enfim, são essas expressões que nos auxiliam, mesmo sem ter lido o livro, a entender o Herói em questão. Pobre Papillon, às vezes tinha que suportar, junto com o seu, o governo do amigo (mais rico e, portanto, mais importunado pelo governo) que tinha atritos que, digamos, não o permitiam manter o “regime político”. Se um governo já é difícil de suportar, imaginem dois enfiados no mesmo sistema (seja ele político ou digestivo).
“... _Comé que é? O cigarro é quanto? Pêra que vou lá ver se o governo pode ajudar.
_ Essa inflação que o governo ta causando é insuportável...”
Nunca gostei muito do governo. Ainda mais depois de saber o que ele fez o coitadinho do Papillon passar. Espero nunca depender dele pra nada.
As eleições nunca mais serão as mesmas:
Entrevistas:
P: Se você for eleito, como será o seu governo nesses próximos quatro anos?
P: No seu governo, você pretende gerar empregos ou fará um trabalho de retenção?
P: Quais medidas o governo deveria tomar para favorecer as classes mais pobres?
A única vantagem dessa história é um amplo leque de oportunidades para trocadilhos:
_ Minha filha, só o governo pode garantir a tua aposentadoria.
_ Esse tem as costas quentes - ligação com o governo.
_ Essa burocracia no governo atrapalha tudo, acaba tornando ele inalcançável.
E o meu preferido:
_ Para o seu governo...
segunda-feira, 19 de março de 2007
Hamlet Shakespeare (sessão da tarde Elizabetana)
Nessa tarde vai rolar mais confusão entre o céu e a terra do que a sua vã filosofia pode imaginar! Hamlet, o queridinho príncipe da Dinamarca, recebe a surpreendente visita do fantasma de seu pai e acaba descobrindo que o seu invejoso tio foi quem botou uma gota de veneno em seu ouvido. Pra piorar, ainda tem que agüentar a barra de ver sua mãe, viúva de apenas dois meses, casar com o tio assassino que é um tremendo baixo astral. Enquanto decide ser ou não ser um vingador, esse malandrinho vai armar as mais loucas confusões e virar a vida de seu padrasto em um verdadeiro pesadelo. Ele e seu amigo Horácio vão formar uma dupla da pesada, arrumando mil confusões, e botar a cidade de cabeça pra baixo. Vai sobrar veneno pra tudo mundo quando ele descobrir que Ofélia, a menina dos seus olhos, pirou na batatinha e se jogou no rio. Vai ser um Deus nos acuda quando tudo ficar podre no reino da Dinamarca!
"Primeriro coveiro: Olha, vê aqui esse crânio? - tava enterrado aí há vinte e três anos.
Hamlet: de quem era?
Primeriro coveiro: um maluco filho da puta, esse aí. o senhor pensa que é de quem?
hamlet: sei lá - não sei.
Primeriro coveiro: que a peste nunca abandone esse palhaço louco! uma vêz derrubou em minha cabeça um garrafão inteiro de vinho do Reno. Esse crânio aí, cavalheiro, foi o crânio de Yorick, o bobo do rei.
hamlet: este aqui?
hamlet: deixa eu ver. (pega o cranio.) Olá, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio. um rapaz de infinita graça, de espantosa fantasia. Mil vezes me carregou nas costas; e agora, me causa horror só de lembrar! Me revolta o estômago! Daqui pendiam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Yorick, onde andam agora as tuas piadas? Tuas cambalhotas? tuas cantigas? teus lampejos de alegria que faziam a mesa explodir em gargalhadas? Nem uma gracinha mais, zombando da tua própria dentadura? que falta de espírito! Olha, vai até o quarto da minha grande dama e diz a ela que, mesmo que se pinte com dois dedos de espessura, este é o resultado final; vê se ela ri disso!"
Hamlet -Shakespeare (Chaves)
Muitas das obras de Shakespeare tem como plot a loucura e a paixão excessiva, que impulsionam ações exageradas, muitas vezes encontrando um fim na morte dos protagonistas, geralmente por envenenamento. Mas Hamlet, no aspecto da loucura e precipitação, vence todos os outros e pode ser classificado como o perfeito pesadelo, de um caso de terapia familiar, de qualquer psicanalista. Hamlet, o príncipe da Dinamarca, descobre, através de uma visita do fantasma de seu pai, que seu tio o teria matado, com uma gota de veneno no ouvido, a fim de tomar seu trono e sua esposa. Enfurecido Hamlet prepara uma vingança, mas se atormenta, quase à loucura, com a idéia de pagar com a mesma moeda tão terrível crime. Num estado de confusão, acaba tirando a vida do pai de sua amada Ofélia. Esta, por sua vez, também enlouquece atirando se nas profundezas das águas. O final trágico nos ensina que Chaves estava certo quando disse: a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.
"Hamlet:... todos os acontecimentos parecem me acusar, me impelindo à vingança que retardo! o que é um homem cujo melhor uso e melhor aproveitamento do seu tempo é comer e dormir? apenas um animal. é evidente que esse que nos criou com tanto entendimento, capazes de olhar o passado e conceber o futuro, nao nos deu essa capacidade e essa razão divina para mofar em nós, sem uso. ora, a nao ser por esquecimento animal, ou por indecisao pusilânime, nascida de pensar com excessiva precisao nas consequencias - uma meditaçao que, dividida em quatro, daria apenas uma parte de sabedoria e três de covardia - eu nao sei por que ainda repito: - "isso deve ser feito", se tenho razao, e vontade, e força e meios pra fazê-lo. exemplos grandes quanto a terra me incitam; testemunha é este exército, tao numeroso tao custoso, guiado por um principe sereno dedicado, cujo espírito, inflado por divina ambiçao, é indiferente ao acaso invisível, e expõe o que é mortal e precário a tudo que a fortuna, a morte e o perigo engendram, só por uma casca de ovo. se verdadeiramente grande é nao se agitar sem uma causa maior, mas encontrar motivo de contenda numa palha quando a honra está em jogo. como é que eu fico, entao, eu que com um pai assassinado e uma mae conspurcada, excitaçoes de meu sangue e da minha razao, deixo tudo dormir? e, pra minha vergonha, vejo a morte iminente de vinte mil homens que, por um capricho, uma ilusao de gloria, caminham para a cova como quem vai pro leito, combatendo por um terreno no qual nao há espaço para lutarem todos; nem dá tumba suficiente para esconder os mortos? oh, que de agora em diante meus pensamentos sejam só sangrentos; ou nao sejam nada!"
Notas do Subsolo - Dostoievski
Detestável, sujo, imundo. Um cão! Um verme. São palavras fortes a se dizer de alguém, e ainda piores se falam de si mesmo. Assim é o protagonista em "Notas do subsolo e outros contos": um homem medíocre, em um cenário deprimente, que decide no fim da vida confessar seus desgostos e rancores guardados há anos no subsolo de sua consciência. Esse homem vil encontra seus prazeres em dominar e humilhar qualquer um que puder desmoralizar. Infeliz, se obriga a transformar sofrimentos
"...quanto mais o bem e todas as coisas "belas e sublimes" se tornavam claras à minha consciência, mais profundamente eu me afundava na minha lama, mais eu me sentia capaz de me enterrar definitivamente. Porém, o que era particularmente notável é que esse desacordo não parecia uma coisa fortuita, dependendo das circunstâncias, mas parecia vir por si e se produzir muito naturalmente. Dir-se-ia que era meu estado normal e de modo nenhum uma doença ou um vício; a tal ponto que, finalmente, perdi todo o desejo de lutar. Enfim, para concluir, admito quase (talvez o admita completamente) que tal era com efeito o estado normal do meu espírito. Mas, antes, no começo, quantos sofrimentos suportei pacientemente nessa luta! Não acreditava que outros pudessem estar no mesmo caso, e durante toda a minha vida escondi essa particularidade como um segredo. Eu tinha vergonha (pode ser que tenha vergonha ainda hoje)."
quinta-feira, 1 de março de 2007
COMUNIDADE: JÁ FIQUEI, SÓ DE CUECAS ,PRESO NUMA GRADE
Lembram daquele cara que tentou roubar uma casa e quando foi sair, ficou preso na grade da janela? Apareceu na tevê, os policiais algemando ele, depois serrando as grades enquanto ele só olhava com aquela cara de “que idéia idiota que eu tive”. O que nunca entendi foi porque ele tava só de cueca. Que tipo de gente vai assaltar uma casa só de cuecas? (Se você responder “alguém que só tem cuecas” te arrebento).
Tá bom, eu sei, não deve ter um código de conduta ao cometer crimes, mas o que quero dizer é: pô!? Cuecas!?
Na minha opinião, ele tinha tudo planejado, afinal ninguém pode ser tão idiota a ponto de tentar passar por uma grade feita pra ninguém conseguir passar. Ficou de cuecas só pra aparecer na televisão e dizer pros amigos que tava traçando a dona da casa.
É... mas nesse caso a cara de “que cagada!” não seria facilmente explicada.
Talvez ele tenha calculado mal a dose de pó de pirim pim pim, acabando o efeito justo na hora de passar pela grade, fazendo ele voltar a forma normal e ficar preso. E a cueca? Bem, a capa de invisibilidade dele teria caído também, ou seu colega Harry fugiu com ela. Ou quem tenha usado pó de pirim pim pim demais tenha sido eu.
Acho que isso tudo é irrelevante dado às circunstâncias agravantes pós-assalto-de-cuecas filmado e transmitido em rede nacional (sorte que não tinha youtube naquela época). Depois desse assalto a vida desse cara desmoronou. Ninguém levava ele a sério.
- Passa a grana, isso é um assalto!
- Ai que susto cara! Quase não te reconheci de roupa.
- Cala a boca e passa a carteira!
- A carteira até que passa, mas você é bem capaz que não (risadas frenéticas).
E assim por diante, só se agravava. Sem dinheiro pra comer foi obrigado a vender suas roupas. Com isso, foi reconhecido e zoado ainda mais facilmente.
Com passado criminoso, ficha sujíssima, inaptidão total para qualquer trabalho, e pouquíssima leitura, só lhe restava virar pastor. Mas por pior que fosse sua situação, ainda tinha princípios e preferiu ser vagabundo mesmo, assim poderia contribuir mais com a sociedade.
Não é que o destino e sua “fotogêniquisse” o trouxeram novamente diante das câmeras! Lá estava ele, cantando para nosso repórter: “iê iê iê iê, u cão foi qui botô pá nóis bebê”. Jeremias estava voltando com tudo. Agora está se candidatando a deputado com a promessa da reforma política no número de contingente da câmara: “se eu pudé mato mais di míu, queu sô caba hómi!”. E com youtube e afins, todos apoiando ele, tem grandes chances de ganhar.
Pois é meu amigo, nessa geração de sanduíche-iche, e sapoinhôooooo, quem bolar a coisa mais idiota possível é rei. Eu fiz minha parte escrevendo isso, e você a sua lendo. Sorte que não estamos na internet. Ou estamos? Se estamos já era.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
Lei da síntase
ou,
tudo se resume a...
Falha estátua da lei
Fal ...a ......tua .....lei.
F .l ...a ......tu .......lei.
Da Experiência
Voz de anjo,
Sorriso de anjo,
Pele de anjo,
Ah, se nunca antes tivesse sido tentado,
Nem de leve desconfiaria
Que és um diabo disfarçado.
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
Trapo - Cristóvão Tezza
Caro ouvinte, ouvante, ouvário. É triste ter que te informar a morte do maior poeta desconhecido de Curitiba: Trapo, o marginal drogado, o romântico grosseiro, o amante e assassino da poesia. Tanto tentou matá-la que acabou morto por ela. Ta lá, no chão de um pensionato sujo, todo ensangüentado. O desgraçado tinha que ser tão dramático e dar um tiro na cara?! Pensando bem, em se tratando do Trapo, não foi tão dramático assim. Sei lá se foi ele mesmo que deu o tiro. Talvez tenha sido sua infância odiosa, o desprezo de seu pai, ou seu impossível amor por Rosana. Será que não tava tentando passar um recado? Tipo, ele sendo um poeta... querendo matar a poesia... se matando... Nah! Não era nenhum idiota caprichoso pra dar um recado tão podre assim. Dizem que tem alguma coisa a ver com os gregos. Quem disse isso? Um tal de Cristóvão Tezza. Ah! e o professor Manuel também. Esse eu boto a mão no fogo que matou a charada. E eu que não dava nada pra ele. Mas sei lá, não interessa como morreu né? Só sei que enquanto tava vivo, ele era muito foda.
"Mas deixa eu explicar. É que houve alguns filhos da puta no passado (não muito longínquo) que por meio de artes do demônio e da magia negra, lançando mão do espiritismo e da metempsicose às avessas, houve uns desgraçados, uns desonestos, uns ladrões, uns larápios, uma súcia de escroques que, por não terem imaginação própria, por não disporem da mínima intuição criadora (e nenhum lastro de honestidade intelectual, evidente), rascunharam, escreveram, datilografaram e publicaram TODOS OS POEMAS que por direito imanente, impostergável, genético, soberano, absoluto, ME PERTENCIAM – poemas tão meus quanto a piroca que trago pendurado entre as pernas. Ou seja: não há engano possível. E, o que é pior – e insolúvel, esses canalhas viveram muito antes que eu tivesse nascido, de modo que não me restou nenhum recurso, legal ou não, para reaver o que legitimamente me pertence. Sou a vitima de um crime perfeito."
segunda-feira, 13 de novembro de 2006
Vidas Secas
Em uma planície avermelhada e rachada, onde só o azul irritante do céu domina autoritário, negando a presença de qualquer nuvem de esperança, as únicas sombras que se formam são cinco silhuetas tortas. Elas pertencem a Fabiano, o rústico chefe da família, sinhá Vitória, sua esposa, e os dois meninos, seguindo logo atrás deles a fiel cachorra baleia. Essa família de retirantes em busca de sobrevivência, é vítima da terrível crueldade poética do autor Graciliano Ramos, que nessa obra se supera. Durante essa expressão da miséria humana ele não concedendo nenhuma piedade aos personagens, transformando-os numa extensão do cenário, e outras vezes, confundindo-os com animais. Aliás, a personagem com maior humanidade parece ser a cachorra, tendo um capítulo inteiro dedicado a ela, a única que recebe a simpatia do autor e é sacrificada, cortada de seu sofrimento. Fabiano e sua família seguem com suas Vidas Secas, sendo atormentados, mais que pelo calor, pela falta de esperança que faz evaporar seus sonhos.
"Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro de palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado. _Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: _Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha - e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha. _Um bicho, Fabiano."
segunda-feira, 30 de outubro de 2006
A morte e a morte de Quincas Berro D'água
Em um velório aparecem três bêbados... Pronto. É material perfeito para uma piada! Ou para um livro. É o que Jorge amado faz em “A morte e a morte de Quincas Berro d’água”. Nesse livro encontramos o personagem mais “vivo” (em termos) e malandro possível. Conta a história que Quincas era um pai de família respeitado com um trabalho estável e... em outras palavras: a vida era um saco. Decidiu há algum tempo largar tudo e todos que estavam atravancando seu caminho e virar passarinho, aliás, passarinho não, que passarinho não bebe alguns tipos de água, não é mesmo? Um dia bateu as botas, duas vezes! A primeira de uma forma tranqüila em seu quarto, a segunda afogado no mar, após ter saído de seu caixão e, surpreendentemente, passeado com os companheiros de cachaça pelas ruas de Salvador. De qualquer forma foi uma grande perda para nós. Aliás, o que seria de nós sem esses poetas, cantores e palhaços em transe? Com certeza o mundo perderia parte de seu brilho, se bem que também perderia parte do cheiro, mas deixa isso pra lá. Ei, já te contei aquela do bêbado e a freira?...
"Negro Pastinha virava um trago, enxugava uma lagrima, urrava em desespero: - morreu o pai da gente.../ - ...pai da gente...- gemiam os outros. Circulava a garrafa consoladora, cresciam lágrimas nos olhos do negro, crescia seu agudo sofrer: - Morreu o homem bom.../ - ...homem bom.../ De quando em quando, um novo elemento incorporava-se à roda, por vezes sem saber do que se tratava. Negro Pastinha estendia-lhe a garrafa, soltava seu grito de apunhalado: - Ele era bom.../ - ...era bom... – repetiam os demais, menos o novato, á espera de uma explicação para os tristes lamentos e a cachaça grátis. – Fala também, desgraçado...- Negro Pastinha, sem se levantar, espichava o poderoso braço, sacudia o recém-chegado, um brilho nos olhos. – Ou tu acha que ele era ruim? Alguém se apressava a explicar, antes que as coisas se tornassem malparadas. – Foi Quincas Berro Dágua que morreu. – Quincas?...era bom..._dizia o novo membro do coro, convicto e aterrorizado. – Outra garrafa! – reclamava, entre soluços, Negro Pastinha."
quarta-feira, 25 de outubro de 2006
Trablhos de Amor Perdidos - Shakespeare
Quem nunca teve uma desilusão amorosa? Que o tenha feito querer desistir de uma vez dessa besteira de amor, de todos esses “trabalhos de amor perdidos”? Esse é o título da peça de Shakespeare, na qual um rei e três de seus nobres fazem votos de se dedicarem, durante três anos, somente aos estudos, negando-se também aos prazeres e futilidades. A chegada de uma princesa com suas cortesãs e, junto com elas, aquele inconveniente menino arqueiro e míope, força os quatro amigos a trocarem esses votos por um melhor. Eles são instigados pelo rei e seu grito de guerra: “Por São Cupido! Soldados, à batalha!”. Começam então o trabalho da conquista. Um acontecimento trágico acaba por separá-los, tornando seus trabalhos de amor perdidos. Mas a única perda real no amor é quando por medo, ou timidez, ele nunca acontece. É o que defende Byron (o nobre mais a favor de quebrar os votos), quando fala dos que ficam só na teoria: “Os padrinhos terrestres da luz pura, que aos astros sabem dar nomes em messe, não tem nas belas noites mais ventura, do que o pastor que a todos desconhece”.
"BIRON – Quando jurastes estudar, senhores, abjurastes do livro verdadeiro. (...). Milorde, e vós, e vós, como é possível investigar a fundo a alta excelência dos estudos, privados sempre e sempre da beleza de um rosto de mulher? (...) Ora, quando jurastes não ver rosto de mulher, abjurastes simplesmente do uso dos olhos, sim, do estudo, objeto de vosso juramento. Existe, acaso, no mundo algum autor que, como os olhos da mulher nos ensine o que é a beleza? O saber é tão-só o complemento de nós próprios, que se acha onde estivermos. Quando nos belos olhos de uma jovem nos miramos, não vemos, por acaso, também nosso saber? Fizemos voto, milordes, de estudar, mas repudiamos com o juramento os verdadeiros livros. (...) Dos olhos da mulher eu deduzo isto: São eles que irradiam a fagulha viva de Prometeu; as artes todas e os livros eles são, a academia que abrange, explica e nutre o mundo inteiro. Sem eles nada pode haver perfeito."
terça-feira, 10 de outubro de 2006
língua do "p"
para Wendy
Não é amigo nem cupido,
Filo, Eros ou Platão.
Classe, gênero desconhecido,
Estranho amor de nossa união.
Sou menino na terra do nunca, sobrevoando,
Te buscando.
Estatua formosa, os pés na terra, coração no mar.
Presente roubado, gnomo guardado em teus sonhos passeando,
Volta e meia convidando:
“doce menina esquecida vem comigo voar”.
Tomaremos sorvete nas nuvens
Norte ou sul? Não importa em qual polar.
“tens que ir embora logo”.
(teu fantasma vem chegando)
Purificar águas turvas com fogo
Até quando vais tentar?
Menina louca, pés na terra!
Ou coração no mar.
sábado, 16 de setembro de 2006
Quintana de Bolso
Dizem que você nunca estará só se tiver um poeta em seu bolso. Quintana de bolso cumpre muito bem essa função, com uma bela coletânea de poemas cheios de ternura pela vida, escritos por um poeta despreocupado com a crítica, que fazia poesia somente porque sentia necessidade. Descrito uma vez por Erico Veríssimo como um anjo disfarçado de homem (que às vezes, quando se descuidava ao vestir o casaco, suas asas ficavam de fora) Mario Quintana, Poeta das coisas simples, tem uma maneira de pintar com palavras, o cenário do mundo e seus pequenos detalhes esquecidos, nos trazendo a sensação de que na verdade não estamos lendo poemas de outro, mas sim recordando os nossos próprios poemas que ainda não escrevemos. Tornando verdade o que ele disse sobre idéias:
"Qualquer idéia que te agrade
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua...".
O melhor que temos a fazer é ouvir o convite à viagem, ao mundo da poesia, feita por esse grande homem que nos deixou em viagem a poucos anos.
Invitation au Voyage:
"Se cada um de vós, vós outros da televisão
Vós que viajais inertes
Como defuntos num caixão
Se cada um de vós abrisse um livro de poemas...
Faria uma verdadeira viagem...
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo
[mesmo!
inclusive o amor e outras novidades."
Rua dos cataventos XVII:
Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!
Quero ficar com alguns poemas tortos
que andei tentando endireitar em vão...
que lindo a eternidade, amigos mortos,
para as torturas lentas da Expressão!...
Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr de sóis, algum lugar, asas em bando,
mais o rir das primeiras namoradas...
E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra de seu manto...
Da felicidade:
Quantas vezes agente em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!"
sábado, 20 de maio de 2006
SAIA NA CHUVA
Nunca fuja da chuva
Deixe que ela toque tua face,
te abrace.
Ela é o ato desesperado de quem ama e tem saudade.
Evapora e transforma-se.
Para assim tocar-te,
beijar-te
por toda parte
que se ande.
Até que a saudade passe.