sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Um gosto pelo trabalho (conto antropológico, fágico, etc)
Suas visitas ao restaurante tinham razões aparentemente cleptomaníacas. O garçom, ao levar o seu pedido, encontrava uma mesa limpa de seus talheres, temperos e do cliente em si. Às vezes nem a toalha quadriculada escapava. Na verdade só tinha interesse pelos temperos, mas pra não acharem que era um louco, preferia levar fama de ladrão.
Essa estranha mania começou tão automaticamente quanto seu monótono trabalho de escriturário de repartição pública. Um belo dia (sempre acontece mudanças em dias belos) a secretária do chefe, ao lhe entregar o “fardo” rotineiro de papelada, baixou a guarda, tomando um belo beliscão na abundante bunda. Do beliscão foi pra mordidinha na orelha, da orelha pro pescoço, e do pescoço pra consumação total.
Uma coleção de potes de temperos vazios se acumulava sobre sua mesa enquanto o número de funcionários da repartição diminuía gradativamente. Quando o trabalho dos sumidos se acumulou pra ele, foi que decidiu se entregar à justiça.
Condenado à pena de morte teve apenas uma exigência: a presença de seu advogado em sua última refeição.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Que manhã maravilhosa!
Por isso que sempre falo: não adianta se esforçar, vai dar errado mesmo.
Eu tentei chegar na hora, sem fome, e olha no que deu: cheguei atrasado, com fome e sujo. Antes tivesse nem tentado.
Mas acho que o problema aqui não foi pelo esforço, mas sim pelo meu desentendimento com a tal da Pontualidade, nós nao nos damos muito bem. Na verdade a gente só se conhece de vista, mas sabe quando os santos não batem? Então, é o nosso caso. Até tentei estabelecer uma relação mais próxima, mas quando não é pra ser, não é pra ser.
Por isso fico com a Procrastinação mesmo, já temos uma relação de longa data. Nos conhecemos desde pequenininhos, temos os mesmos interesses, e caso tenhamos algum desentendimento, sempre deixamos pra resolver depois. No fim acabamos esquecendo mesmo. Tenho quase certeza que ela nunca vai me abandonar, se bem que antigamente eu costumava ser uma pessoa indecisa, hoje não tenho tanta certeza disso.
A única certeza é que não há propaganda enganosa no Nescau. Antes tivesse.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Quanto custa?
- E aí colega. Tô procurando amor, tem aí?
- Opa, claro, tem vários, qual você quer?
- Eu to procurando amor verdadeiro.
- Víx. Não vai ter desse por aqui não. Aliás, vai ser bem difícil de encontrar. Eles pararam de ser fabricados faz tempo.
- Puxa, eu queria tanto. De tanto ouvir falar disso, nas músicas, novelas e poemas, achei que fosse algo comum.
- É tudo menos comum, acontece só de vez em quando. Eu mesmo, com tantos anos de experiência nesse trabalho, não vi mais do que umas três ou quatro vezes. Estou até surpreso que tenha pedido por isso, não tem muita, ou quase nenhuma procura por amor verdadeiro esses últimos tempos. O máximo que me aconteceu esses dias foi um tal de Frejat procurando um amor muito cheio de exigências, mandei ele ir procurar na lua.
- Mas assim você me desencoraja de procurar um amor.
- Desculpa meu jovem, mas como vendedor tenho que deixar bem claro que não posso garantir que fique cem por cento satisfeito com o amor, ainda mais por não ter aqui o tal do verdadeiro. Mas tenho muitos outros modelos, vale a pena conferir. Olha, eu tenho esse aqui, modelo antigo, mas sai muito ainda: Amor Platônico, é bem econômico, não precisa levar pra jantar, comprar presente no dia dos namorados, só precisa ficar olhando de vez em quando e de longe. Vai querer¿ é ótimo pra pessoas tímidas.
- Não obrigado, já tive muitos desses. Queria algo mais intenso, mais palpável.
- Ah, deixa eu ver... narcisista não, muito comum, tudo mundo tem...amor de verão, não, acabamos de entrar no outono...amor de infância, esse as vezes eu dou de brinde nas escolas, pra incentivar as crianças a comprarem mais no futuro, mas não é o seu caso. Opa! Achei. Mas só uma perguntinha antes, você não é da vigilância fiscal é?
- Não, porque?
- É que esse aqui tem venda sob prescrição médica, mas ninguém leva isso a sério. Você vai gostar. Voilá: Paixão Fulminante. Muito bom. Intenso como você disse. Não é recomendado para pessoas com problemas cardíacos, o efeito é muito forte no início, mas passa rapidinho. O problema é que o uso excessivo acaba diminuindo o efeito de qualquer outro amor que venha eventualmente a ter. E aí¿ vai querer?
- Parece divertido, mas meio perigoso. Não tem algo que não comprometa tanto a saúde assim?
- Que não comprometa? quase tudo que tem aqui é sem compromisso. Temos namorico, flerte (ou Azaração, que é um produto da globo, dá no mesmo), paquera (nossa, sobrou desses da década de 60!), relacionamento aberto - esse eu tenho até vergonha de vender. Pra você ver, eu nem vendo os adicionais de nome esquisito em inglês e francês porque aí já é pouca vergonha demais. Mas nessa profissão a gente tem que ficar atento às novidades, senão acaba falindo.
- É, às vezes eu me sinto deslocado da galera por não ser tão moderninho quanto os outros.
- Não se preocupe, eu tenho algumas novidades tecnológicas interessantes. Aqui ó: o PAPA, versão beta XVI (Programa Avançado de Pesquisa Amorosa), desenvolvido pela Google e a Vatican corporation. Vem com um manual de técnicas de azaração virtual com dicas de como usar o “scrap secreto” e nicks sugestivos, além de um treinamento em obtenção de informações via orkut e uso simultâneo de várias janelas do MSN. Particularmente acho que é tudo uma jogada de marketing pra fazerem os jovens perderem seu tempo na Internet e evitarem de usar essa outra novidade - o “Ficar”. Parece que a Vatican co fez uma declaração contra o “Ficar”, dizendo que era perigoso, sendo mais seguro virar coroinha. Mas eles sempre arrumam brigas por nada, a última foi com as farmácias por venderem certos remédios.
- Certo, mas afinal o que é esse “ficar”?
- Ah, desculpa. É o seguinte, você compra esse aparelho, desenvolvido pela “Jáéou Jáéricsson”, aí você insere os créditos de beijos e vai gastando com todos que tem esse aparelho. O quanto mais conseguir gastar no dia melhor. Aí tem os planos +15, ou +25; tem também o plano “meu jeito” que facilita o uso em horários pré-determinados, manhã, tarde ou noite; tem o número predileto, apelidado de amizade colorida, mas só dá problemas, além de um monte de promoções.
- Puxa, sabe o que é¿ não me parece nada com o que eu estava procurando no início. Tenho medo de usar essas outras alternativas e acabar me contentando só com elas. Não queria ter de desistir tão cedo do amor verdadeiro.
- Entendo, meu jovem, mas não posso fazer nada. O amor verdadeiro foi feito pra durar a eternidade e está fora do meu poder prover isso pra você. Mas se quiser dar uma olhada na loja, fique a vontade, se achar algo que te interesse... estamos aí.
...
- Ei. Olha só, achei essa caixinha escrita Romeu e Julieta, me interessa muito, afinal, o amor deles pareceu-me bem intenso. O que é?
- É goiabada com queijo mesmo. Na verdade é só um brinde. Era isso ou olho da sogra. Sendo que casamento já ta em baixa aqui, achamos que poderia desestimular ainda mais a compra.
- Que pena.
- Que pena nada! Olha, o que aconteceu com Romeu e Julieta foi só mais um caso de overdose de Paixão Fulminante. E nem ficaram juntos no final, ou você acha que se matar resolve tudo? Meio dramático não¿ O amor verdadeiro é eterno e não traz morte, mas vida.
- Entendi. E esse outro “negocinho” aqui, esse triângulo amoroso¿ pra que serve?
- Sabe que eu não sei, nunca vi funcionar, mas sai muito. Pra falar a verdade, o amor quase nunca funciona, exceto o verdadeiro.
- Então pra que serve tudo isso?
- Com o tempo você vai perceber que nem tudo é feito pra funcionar, mas ainda assim é muito belo. Sabe de uma coisa garoto? Você me parece estar realmente interessado no amor. Eu estava guardando isso para alguém que realmente merecesse. Está aqui, meu último exemplar de amor sincero.
- Nossa! É lindo.
- Sim, porém muito frágil. O amor sincero é o que mais se aproxima do verdadeiro, aliás, muitas vezes até acaba se transformando em verdadeiro. Tudo depende de como você o trata.
- Vou levar. Quanto custa?
- Ah, não poderia cobrar nada de você. Primeiro porque é o primeiro que parece interessado de verdade e, portanto, merece esse amor; segundo porque não posso te dar garantia nenhuma de que esse amor funcione; e terceiro, porque, embora possa te dar muita felicidade, poderá trazer muita tristeza e dor caso não funcione. Às vezes ela nunca chega a passar completamente.
- Não importa, quero arriscar. Detestaria pensar que perdi de ter algo tão belo por medo de me machucar. Vou cuidar muito bem dele e tentar nunca estragá-lo. Mesmo que não venha a funcionar, vou carregar esse amor sempre comigo e lembrar sempre dele. E quando alguém me ver, de olhos fechados, sorrindo à toa, nem precisará me perguntar o porquê. Além disso, você disse que ainda tem a chance de se tornar eterno.
- Bem, na verdade foi mais o meu lado vendedor que afirmou isso. Realmente não entendo muito bem disso. O amor eterno não é daqui, ele é... bem, eterno. Não dá pra encontrar ele em qualquer loja. É como se, sendo algo divino, tivesse que ter um pedaço do céu aqui na Terra pra poder encontrá-lo e eu não sei onde seria esse lugar, nem sequer se existe.
- Então vou fazer tudo pra encontrar esse lugar, nem que leve minha vida inteira. Nem que tenha que ir até o ponto final do Centenário - Campo Comprido.
- Se encontrar volte pra me contar.
- Vou agora mesmo. Muito obrigado por tudo. Mas só mais uma coisa que não entendo de jeito nenhum: se o Amor Eterno é algo tão maravilhoso, por que quase ninguém procura?
- Deve ser pelo custo.
- Quanto custa?
- Tudo.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Quando foi que deixei de ser meu¿
¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿ ¿
Por que meus pontos de interrogação estão sempre de ponta cabeça¿
Traidores de sua função questionam o questionador.
Não pedem respostas, só novas dúvidas
E embora estejam no final da pergunta impedem seu fim.
Aprisionam criador, súbita criatura, em criação.
Liberdade de pensamento em escravidão.
Senhor de si é servo do pior tirano.
Coberto de verdades irrelevantes,
Idéias fixas flutuantes.
Perpétuo diferente,
Decidido, desistente,
Frente ao antes.
Quando foi¿
Antes¿
Pergunta indefinida
(indeferida)
ferida
ida
¿
E (muito ou pouco ¿) antes que se vá volta a interpelar:
Quando foi que deixei de ser meu¿
Já no comecinho, quando parei de falar na primeira pessoa
Pra falar do outro.
¿
fim alternativo:
Já no comecinho, quando parei de falar na primeira pessoa
pra pensar em outra.
¿
fim alternativo sintetizado:
já no comecinho, quando parei de pensar.
¿
fim real:
Por que meus pontos de interrogação estão sempre de ponta cabeça¿
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
terça-feira, 1 de maio de 2007
Pro seu Governo
Essa expressão sempre me fez rir. Na verdade só comecei a rir dela depois de ler Papillon, livro autobiográfico de Henri Charrière. Se você acha que o governo é muito duro e judia dos coitados dos cidadãos, você seria levado as lágrimas ao saber pelo que passam os presidiários dessa historia para agüentar o governo, algo que eles chamariam, com razão, um mal necessário.
Trata se da história de um homem injustamente condenado a uma prisão perpétua, pelo suposto assassinato de sua esposa. Ele passa a planejar e fugir diversas vezes de todas as prisões que o colocam. Mas durante todo esse tempo ele tem que agüentar o “governo”, um tubo metálico projetado com o propósito de guardar seu dinheiro para negociações na cadeia e para as fugas.
Se você ainda não percebeu a razão do formato cilíndrico do “petit portefeille”, vá pra cadeia e tente guardar teu dinheiro no bolso. Meu amigo, a única saída pra você é o teu bolso intracutâneo embutido. E lá vai o governo.
Não poderiam batizar a coisa com nome mais apropriado. Basta lembrar a primeira coisa, palavrão, ou melhor, a primeira expressão que sai de sua boca quando está falando do governo: “ah, porque o governo só... a gente”; “esse governo é um baita... no...”. Enfim, são essas expressões que nos auxiliam, mesmo sem ter lido o livro, a entender o Herói em questão. Pobre Papillon, às vezes tinha que suportar, junto com o seu, o governo do amigo (mais rico e, portanto, mais importunado pelo governo) que tinha atritos que, digamos, não o permitiam manter o “regime político”. Se um governo já é difícil de suportar, imaginem dois enfiados no mesmo sistema (seja ele político ou digestivo).
“... _Comé que é? O cigarro é quanto? Pêra que vou lá ver se o governo pode ajudar.
_ Essa inflação que o governo ta causando é insuportável...”
Nunca gostei muito do governo. Ainda mais depois de saber o que ele fez o coitadinho do Papillon passar. Espero nunca depender dele pra nada.
As eleições nunca mais serão as mesmas:
Entrevistas:
P: Se você for eleito, como será o seu governo nesses próximos quatro anos?
P: No seu governo, você pretende gerar empregos ou fará um trabalho de retenção?
P: Quais medidas o governo deveria tomar para favorecer as classes mais pobres?
A única vantagem dessa história é um amplo leque de oportunidades para trocadilhos:
_ Minha filha, só o governo pode garantir a tua aposentadoria.
_ Esse tem as costas quentes - ligação com o governo.
_ Essa burocracia no governo atrapalha tudo, acaba tornando ele inalcançável.
E o meu preferido:
_ Para o seu governo...
segunda-feira, 19 de março de 2007
Hamlet Shakespeare (sessão da tarde Elizabetana)
Nessa tarde vai rolar mais confusão entre o céu e a terra do que a sua vã filosofia pode imaginar! Hamlet, o queridinho príncipe da Dinamarca, recebe a surpreendente visita do fantasma de seu pai e acaba descobrindo que o seu invejoso tio foi quem botou uma gota de veneno em seu ouvido. Pra piorar, ainda tem que agüentar a barra de ver sua mãe, viúva de apenas dois meses, casar com o tio assassino que é um tremendo baixo astral. Enquanto decide ser ou não ser um vingador, esse malandrinho vai armar as mais loucas confusões e virar a vida de seu padrasto em um verdadeiro pesadelo. Ele e seu amigo Horácio vão formar uma dupla da pesada, arrumando mil confusões, e botar a cidade de cabeça pra baixo. Vai sobrar veneno pra tudo mundo quando ele descobrir que Ofélia, a menina dos seus olhos, pirou na batatinha e se jogou no rio. Vai ser um Deus nos acuda quando tudo ficar podre no reino da Dinamarca!
"Primeriro coveiro: Olha, vê aqui esse crânio? - tava enterrado aí há vinte e três anos.
Hamlet: de quem era?
Primeriro coveiro: um maluco filho da puta, esse aí. o senhor pensa que é de quem?
hamlet: sei lá - não sei.
Primeriro coveiro: que a peste nunca abandone esse palhaço louco! uma vêz derrubou em minha cabeça um garrafão inteiro de vinho do Reno. Esse crânio aí, cavalheiro, foi o crânio de Yorick, o bobo do rei.
hamlet: este aqui?
hamlet: deixa eu ver. (pega o cranio.) Olá, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio. um rapaz de infinita graça, de espantosa fantasia. Mil vezes me carregou nas costas; e agora, me causa horror só de lembrar! Me revolta o estômago! Daqui pendiam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Yorick, onde andam agora as tuas piadas? Tuas cambalhotas? tuas cantigas? teus lampejos de alegria que faziam a mesa explodir em gargalhadas? Nem uma gracinha mais, zombando da tua própria dentadura? que falta de espírito! Olha, vai até o quarto da minha grande dama e diz a ela que, mesmo que se pinte com dois dedos de espessura, este é o resultado final; vê se ela ri disso!"
Hamlet -Shakespeare (Chaves)
Muitas das obras de Shakespeare tem como plot a loucura e a paixão excessiva, que impulsionam ações exageradas, muitas vezes encontrando um fim na morte dos protagonistas, geralmente por envenenamento. Mas Hamlet, no aspecto da loucura e precipitação, vence todos os outros e pode ser classificado como o perfeito pesadelo, de um caso de terapia familiar, de qualquer psicanalista. Hamlet, o príncipe da Dinamarca, descobre, através de uma visita do fantasma de seu pai, que seu tio o teria matado, com uma gota de veneno no ouvido, a fim de tomar seu trono e sua esposa. Enfurecido Hamlet prepara uma vingança, mas se atormenta, quase à loucura, com a idéia de pagar com a mesma moeda tão terrível crime. Num estado de confusão, acaba tirando a vida do pai de sua amada Ofélia. Esta, por sua vez, também enlouquece atirando se nas profundezas das águas. O final trágico nos ensina que Chaves estava certo quando disse: a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.
"Hamlet:... todos os acontecimentos parecem me acusar, me impelindo à vingança que retardo! o que é um homem cujo melhor uso e melhor aproveitamento do seu tempo é comer e dormir? apenas um animal. é evidente que esse que nos criou com tanto entendimento, capazes de olhar o passado e conceber o futuro, nao nos deu essa capacidade e essa razão divina para mofar em nós, sem uso. ora, a nao ser por esquecimento animal, ou por indecisao pusilânime, nascida de pensar com excessiva precisao nas consequencias - uma meditaçao que, dividida em quatro, daria apenas uma parte de sabedoria e três de covardia - eu nao sei por que ainda repito: - "isso deve ser feito", se tenho razao, e vontade, e força e meios pra fazê-lo. exemplos grandes quanto a terra me incitam; testemunha é este exército, tao numeroso tao custoso, guiado por um principe sereno dedicado, cujo espírito, inflado por divina ambiçao, é indiferente ao acaso invisível, e expõe o que é mortal e precário a tudo que a fortuna, a morte e o perigo engendram, só por uma casca de ovo. se verdadeiramente grande é nao se agitar sem uma causa maior, mas encontrar motivo de contenda numa palha quando a honra está em jogo. como é que eu fico, entao, eu que com um pai assassinado e uma mae conspurcada, excitaçoes de meu sangue e da minha razao, deixo tudo dormir? e, pra minha vergonha, vejo a morte iminente de vinte mil homens que, por um capricho, uma ilusao de gloria, caminham para a cova como quem vai pro leito, combatendo por um terreno no qual nao há espaço para lutarem todos; nem dá tumba suficiente para esconder os mortos? oh, que de agora em diante meus pensamentos sejam só sangrentos; ou nao sejam nada!"
Notas do Subsolo - Dostoievski
Detestável, sujo, imundo. Um cão! Um verme. São palavras fortes a se dizer de alguém, e ainda piores se falam de si mesmo. Assim é o protagonista em "Notas do subsolo e outros contos": um homem medíocre, em um cenário deprimente, que decide no fim da vida confessar seus desgostos e rancores guardados há anos no subsolo de sua consciência. Esse homem vil encontra seus prazeres em dominar e humilhar qualquer um que puder desmoralizar. Infeliz, se obriga a transformar sofrimentos
"...quanto mais o bem e todas as coisas "belas e sublimes" se tornavam claras à minha consciência, mais profundamente eu me afundava na minha lama, mais eu me sentia capaz de me enterrar definitivamente. Porém, o que era particularmente notável é que esse desacordo não parecia uma coisa fortuita, dependendo das circunstâncias, mas parecia vir por si e se produzir muito naturalmente. Dir-se-ia que era meu estado normal e de modo nenhum uma doença ou um vício; a tal ponto que, finalmente, perdi todo o desejo de lutar. Enfim, para concluir, admito quase (talvez o admita completamente) que tal era com efeito o estado normal do meu espírito. Mas, antes, no começo, quantos sofrimentos suportei pacientemente nessa luta! Não acreditava que outros pudessem estar no mesmo caso, e durante toda a minha vida escondi essa particularidade como um segredo. Eu tinha vergonha (pode ser que tenha vergonha ainda hoje)."
quinta-feira, 1 de março de 2007
COMUNIDADE: JÁ FIQUEI, SÓ DE CUECAS ,PRESO NUMA GRADE
Lembram daquele cara que tentou roubar uma casa e quando foi sair, ficou preso na grade da janela? Apareceu na tevê, os policiais algemando ele, depois serrando as grades enquanto ele só olhava com aquela cara de “que idéia idiota que eu tive”. O que nunca entendi foi porque ele tava só de cueca. Que tipo de gente vai assaltar uma casa só de cuecas? (Se você responder “alguém que só tem cuecas” te arrebento).
Tá bom, eu sei, não deve ter um código de conduta ao cometer crimes, mas o que quero dizer é: pô!? Cuecas!?
Na minha opinião, ele tinha tudo planejado, afinal ninguém pode ser tão idiota a ponto de tentar passar por uma grade feita pra ninguém conseguir passar. Ficou de cuecas só pra aparecer na televisão e dizer pros amigos que tava traçando a dona da casa.
É... mas nesse caso a cara de “que cagada!” não seria facilmente explicada.
Talvez ele tenha calculado mal a dose de pó de pirim pim pim, acabando o efeito justo na hora de passar pela grade, fazendo ele voltar a forma normal e ficar preso. E a cueca? Bem, a capa de invisibilidade dele teria caído também, ou seu colega Harry fugiu com ela. Ou quem tenha usado pó de pirim pim pim demais tenha sido eu.
Acho que isso tudo é irrelevante dado às circunstâncias agravantes pós-assalto-de-cuecas filmado e transmitido em rede nacional (sorte que não tinha youtube naquela época). Depois desse assalto a vida desse cara desmoronou. Ninguém levava ele a sério.
- Passa a grana, isso é um assalto!
- Ai que susto cara! Quase não te reconheci de roupa.
- Cala a boca e passa a carteira!
- A carteira até que passa, mas você é bem capaz que não (risadas frenéticas).
E assim por diante, só se agravava. Sem dinheiro pra comer foi obrigado a vender suas roupas. Com isso, foi reconhecido e zoado ainda mais facilmente.
Com passado criminoso, ficha sujíssima, inaptidão total para qualquer trabalho, e pouquíssima leitura, só lhe restava virar pastor. Mas por pior que fosse sua situação, ainda tinha princípios e preferiu ser vagabundo mesmo, assim poderia contribuir mais com a sociedade.
Não é que o destino e sua “fotogêniquisse” o trouxeram novamente diante das câmeras! Lá estava ele, cantando para nosso repórter: “iê iê iê iê, u cão foi qui botô pá nóis bebê”. Jeremias estava voltando com tudo. Agora está se candidatando a deputado com a promessa da reforma política no número de contingente da câmara: “se eu pudé mato mais di míu, queu sô caba hómi!”. E com youtube e afins, todos apoiando ele, tem grandes chances de ganhar.
Pois é meu amigo, nessa geração de sanduíche-iche, e sapoinhôooooo, quem bolar a coisa mais idiota possível é rei. Eu fiz minha parte escrevendo isso, e você a sua lendo. Sorte que não estamos na internet. Ou estamos? Se estamos já era.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
Lei da síntase
ou,
tudo se resume a...
Falha estátua da lei
Fal ...a ......tua .....lei.
F .l ...a ......tu .......lei.
Da Experiência
Voz de anjo,
Sorriso de anjo,
Pele de anjo,
Ah, se nunca antes tivesse sido tentado,
Nem de leve desconfiaria
Que és um diabo disfarçado.
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
Trapo - Cristóvão Tezza
Caro ouvinte, ouvante, ouvário. É triste ter que te informar a morte do maior poeta desconhecido de Curitiba: Trapo, o marginal drogado, o romântico grosseiro, o amante e assassino da poesia. Tanto tentou matá-la que acabou morto por ela. Ta lá, no chão de um pensionato sujo, todo ensangüentado. O desgraçado tinha que ser tão dramático e dar um tiro na cara?! Pensando bem, em se tratando do Trapo, não foi tão dramático assim. Sei lá se foi ele mesmo que deu o tiro. Talvez tenha sido sua infância odiosa, o desprezo de seu pai, ou seu impossível amor por Rosana. Será que não tava tentando passar um recado? Tipo, ele sendo um poeta... querendo matar a poesia... se matando... Nah! Não era nenhum idiota caprichoso pra dar um recado tão podre assim. Dizem que tem alguma coisa a ver com os gregos. Quem disse isso? Um tal de Cristóvão Tezza. Ah! e o professor Manuel também. Esse eu boto a mão no fogo que matou a charada. E eu que não dava nada pra ele. Mas sei lá, não interessa como morreu né? Só sei que enquanto tava vivo, ele era muito foda.
"Mas deixa eu explicar. É que houve alguns filhos da puta no passado (não muito longínquo) que por meio de artes do demônio e da magia negra, lançando mão do espiritismo e da metempsicose às avessas, houve uns desgraçados, uns desonestos, uns ladrões, uns larápios, uma súcia de escroques que, por não terem imaginação própria, por não disporem da mínima intuição criadora (e nenhum lastro de honestidade intelectual, evidente), rascunharam, escreveram, datilografaram e publicaram TODOS OS POEMAS que por direito imanente, impostergável, genético, soberano, absoluto, ME PERTENCIAM – poemas tão meus quanto a piroca que trago pendurado entre as pernas. Ou seja: não há engano possível. E, o que é pior – e insolúvel, esses canalhas viveram muito antes que eu tivesse nascido, de modo que não me restou nenhum recurso, legal ou não, para reaver o que legitimamente me pertence. Sou a vitima de um crime perfeito."
segunda-feira, 13 de novembro de 2006
Vidas Secas
Em uma planície avermelhada e rachada, onde só o azul irritante do céu domina autoritário, negando a presença de qualquer nuvem de esperança, as únicas sombras que se formam são cinco silhuetas tortas. Elas pertencem a Fabiano, o rústico chefe da família, sinhá Vitória, sua esposa, e os dois meninos, seguindo logo atrás deles a fiel cachorra baleia. Essa família de retirantes em busca de sobrevivência, é vítima da terrível crueldade poética do autor Graciliano Ramos, que nessa obra se supera. Durante essa expressão da miséria humana ele não concedendo nenhuma piedade aos personagens, transformando-os numa extensão do cenário, e outras vezes, confundindo-os com animais. Aliás, a personagem com maior humanidade parece ser a cachorra, tendo um capítulo inteiro dedicado a ela, a única que recebe a simpatia do autor e é sacrificada, cortada de seu sofrimento. Fabiano e sua família seguem com suas Vidas Secas, sendo atormentados, mais que pelo calor, pela falta de esperança que faz evaporar seus sonhos.
"Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro de palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado. _Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: _Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha - e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha. _Um bicho, Fabiano."