domingo, 20 de fevereiro de 2011

Voltar

Preciso voltar a escrever. Já sinto dor suficiente para isso.

sábado, 26 de setembro de 2009

A velhice na janela

Caminhava agora pela Desembargador Mota. Como tinha raiva do maldito "estar" de Curitiba! Era obrigado a estacionar três quadras do seu destino. “Relaxa”, pensou, poderia ser pior, sempre pode ser pior, é incrível como tudo pode piorar, até o pessimismo. De qualquer forma era bem mais perto de onde costumava estacionar para ir ao centro, cinco quadras mais perto para ser mais exato, 10 minutos a menos caminhando, mais tempo para o almoço, tempo que provavelmente perderia tentando se decidir onde comer e... “meu, você pensa demais”.
Uma moça muito alta passou por ele na direção oposta. Nem reparou se era bela ou feia, só alta. Gostava da beleza, de todos os tipos, mesmo da beleza feia, da inusitada que quase ninguém percebe. Era comum se apaixonar a cada cinco minutos. Planejava uma vida inteira a frente caso o acaso os aproximasse, ou se achasse o aproach certo, aqueles de cinema. Mas essa era apenas alta. Alta demais. Pensou que as pessoas altas deveriam ser proibidas, ressaltam demais a baixeza dos baixinhos, é agressivo. Já os baixinhos não, esses são, em suma, agradáveis, mas muito fáceis de irritar. Já viu alguma baixinha tranqüila? Se for tranqüila é doentinha, anêmica.
Esperou os carros passarem para atravessar a rua. Não paravam de vir. Resolveu andar mais um pouco adiante, para ganhar tempo. Tinha essa mania de não ficar parado, não perder tempo em nada, mas tinha que assumir que isso era apenas em relação ao outro, quando suas ações dependiam da espera dos outros. Era capaz de ficar o dia inteiro sem fazer nada realmente útil se estivesse totalmente sozinho. “Os carros não param nunca nessa rua”. Caminhou um pouco mais. Lembrou que uma vez quase foi atropelado por um ônibus. No dia, não viu sua vida inteira passando diante de seus olhos, pelo contrário, imaginou todo seu futuro evaporando. Hoje, cinco anos depois desse incidente, percebeu que tinha imaginado um futuro bem diferente. Como seria se quase fosse atropelado novamente, o que imaginaria?
Pensou na morte como uma realidade. Não estava pronto para morrer, mas não temia a morte. Sentiu raiva de si por tanta indiferença, tanto que conseguiu mudar esse sentimento quase que instantaneamente. Agora temia a morte e exigia mais tempo para se preparar (mesmo assim não atravessaria na faixa, nunca!), e pensava isso como quem negocia com o próprio ceifador maldito. Pensou até em propor uma partida de xadrez, ou quem sabe guitar hero? Sendo uma criatura tão ultrapassada provavelmente teria mais chances de ganhar (velha caricatura da morte, herança de Bergman). Achou absurdo estar pensando nisso, ele que apenas queria atravessar a rua para o seu destino, e, sem perceber a ambiguidade e seriedade da sentença, resolveu pensar menos.“Meu, você é retardado”.
Na casa de repouso do outro lado da rua, ao atravessar, viu uma velha triste olhando da janela do último andar. Parecia uma prisioneira encarcerada há anos, com apenas aquele quadrado na parede como contato com o resto do mundo, aquele mesmo pedaço de mundo todo dia, mas hoje era uma parcela de mundo excepcional: com ele compondo o quadro. (Tão modesto). Ele poderia fazer a diferença do seu dia. Pensou em acenar, mas não conseguiu. "Nem estava me olhando", pensou, "e, se estivesse, só iria se sentir pior por ter que agüentar zombaria de um idiota". Costumava ser muito mais espontâneo. Era a idade. Sentiu os anos pesarem. Ainda era muito jovem, mas relutava por não ser mais criança, queria ser criança para sempre. “Cresça imbecil”.
Imaginou-se dali a 60 anos, também preso em um quarto de repouso, uma criança de castigo por ter envelhecido. O que pensaria enquanto olhasse da janela? “Pessoas jovens deveriam ser proibidas”.
A senhora na janela lhe acena, mas não é uma saudação.
Uma buzina. Pneus gritando.
Nada passa diante de seus olhos. Tudo já havia passado, inclusive o futuro.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Retrato de um pôr-do-sol

Acordou com um gosto estranho na boca, um gosto que sentira há anos atrás enquanto dançava. Um gosto de angústia com sabor de querer, uma saudade salgada misturada com a agridoce paixão apressada. Sabor de beijo roubado, que de roubado só tem o nome, pois já era há muito esperado. Nos últimos dias vinha sentindo essa sensação na boca, como se fosse uma simples lembrança, mas naquela manhã era diferente, sentia o gosto real, idêntico ao primeiro, mas a música... qual era?

Chegou pela primeira vez antes da hora marcada, ironicamente seria também a última. O encontro fora marcado com a condição de que não haveria mais encontros, nunca mais poderiam se ver. É certo que a promessa fora feita e desfeita várias vezes antes. Eles acumulavam uma série de despedidas, das mais variadas, chorosas de partir o coração, dramáticas e doloridas (inclusive fisicamente), apáticas e fingidas, mas todas com a silhueta esvaziando à distância, sumindo na esquina.

Enquanto esperava, o gosto se intensificava, como o faminto que saliva ao sentir o aroma de comida. Mas como não podia lembrar a música? Lembrava tê-la puxado pelo braço - um misto de ansiosa brutalidade e pressa cuidadosa - ao meio do salão, a dança, as provocações, os olhares evadios e vadios, e por fim o... Ela apareceu, como sempre flutuando pela calçada, e sentou ao seu lado. Por um momento teve dificuldade em separar a realidade do súbito flashback, mas logo ela começou a falar. “Odeio calor”. Sim, era ela mesma.

Saíram sem rumo nem direção, ainda assim querendo encontrar um lugar, uma metáfora do que pareciam ser. Naquele dia veriam as coisas mais bizarras, mais pelo seu estado quase que onírico do que pela realidade do lugar estranho em que foram parar. Seria o dia em que atravessariam o Paraná em segundos, correriam pelos Andes, fugiriam com o circo e se perderiam em uma reserva florestal. Poderiam ter vivido para sempre com os guaranis, passando os dias identificando as formas das nuvens no céu. Poderiam ter vivido para sempre.

O que foi que tirou a vida deles? Quem destruiu o sonho? Como se tivessem separado um par especial de diabretes para atormentá-los: o da inveja, com o nariz maior que o rosto, sempre metido em suas vidas, carregando a tiracolo sua diabinha pançuda da mentira e falsidade, a mais egoísta e traiçoeira de todas. Mas isso seria dar força demais ao que não tem valor. O erro, se houve, foi deles. O que os separou foi exatamente aquilo que os uniu: seu amor um pelo outro. Se não fazia sentido no começo tampouco faria agora. Era um fato, o que os atraía era o que os obrigava a se afastar. As dores, as brigas, o ciúmes, o que quer que fosse eram apenas notas dissonantes em acordes de sua música, música esquecida.

Descobriram um caminho de volta para casa. Um caminho cheio de belas árvores que aparavam os raios do sol, já se retirando para seu sono. As sombras dançavam a sua frente como se tentassem providenciar um pouco de beleza naquele momento melancólico. Logo viria a noite e tudo seria passado. O gosto era tão intenso que ardia em sua boca e ele não pensava em nada além de beijá-la como a primeira e última vez. Parecia que sincronizados com o movimento do sol ambos lentamente se aproximavam um do outro até que, no instante em que a orla do sol tocou o horizonte, seus lábios se tocaram falsamente contrariados.

O gosto.

Por mais que tentasse, o sol não pôde evitar seu curso e mergulhou no horizonte. Se lhe perguntassem a opinião, o astro rei diria que fora uma das cenas mais belas que presenciara desde seu nascimento, pecando apenas na falta de trilha sonora. Mas agora quem reinava era a noite.

Ele a olhava, com a vista embaçada, enquanto sua figura mais uma vez se dissolvia na escuridão. Impulsionado pela Luna louca, quis correr atrás dela, mas desistiu. Sabia que nunca deixaria de sentir aquele gosto único, mas a música, essa estava perdida para sempre na memória.



Bipolaridade Fosforescente

Dor no peito,
Nó na garganta,
Borboletas no estômago,
Obliquidade no olhar,
Parafusos soltos,
Incompletude intermitente,
Síndrome do arroz de festa,
Indecisão peremptória (ou não),
Desassossego abrupto,
Bipolaridade bipolar,
Mamilos eriçados,
Desejos supérfluos,
Regressão perpétua,
Palavras ao vento,
Pontinhas das roupas enroladas e amassadas,
Furos na parte superior posterior das orelhas,
Solilóquios violentos,
Adrenalina preguiçosa,
Temerosidade aérea,
Exibisionismo gratuito,
Ocupação espacial exagerada(característico de bailarinos kelsonianos, agravado apenas pela remoção completa de pêlos),
Daltonismo alheio (olhos verdes camuflados),
Cabelo enrolado,
Beleza extrema,
Magreza extrema,
Extremidades extremas,
Extremismo extremo,

Entre outros.


Esses são os principais sintomas. Infelizmente ainda não há cura. O tratamento é muito caro e ainda em fase de pesquisa e desenvolvimento. Se sofrer desse mal sugiro se ocupar em alguma atividade que consuma muita energia, como dança, ou algo que possa esvaziar metafisicamente sua mente, como escrever. Mesmo assim não vai funcionar. Então, azar seu.
A boa notícia é que, até agora, só foi detectado um caso no mundo todo:



A má é que pode ser contagioso.

domingo, 14 de junho de 2009

Ando tão distraído

Ao ver essa menina, virei menino maluquinho.
Troquei os pés pelas mãos, meu chapéu por panela.
Esqueci tudo o que sou, não lembro nem um pouquinho.
Nem nome, nem religião, em minha mente só dá ela.

E de tanta distração, perdi minha própria alma.
Fugiu de casa pelo vão (vê se pode!) da janela.
Não volta há anos, eu sei, mesmo assim não perco a calma.
Pois se já não mora em mim, é que hoje habita nela.





ass: menino maluquinho, monstrinho, criança em tamanho de gente grande.

sábado, 13 de junho de 2009

Imagem

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Uma coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca,
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,

Uma coisa branca
Para me encostar

E afundar o rosto.
Talvez um seio,

Talvez um ventre,
Talvez um braço,

Onde repousar.
Eis o meu desejo,

Uma coisa branca
Bem junto de mim,

Para me sumir,
Para me esquecer,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.




Dante Milano(1899-1981)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

domingo, 22 de março de 2009

É coisa de quem nasce

É coisa de ator, sabe? Se esconder em máscaras, persona atrás de persona, dissimular, enganar, verter lágrimas quando o choro é esperado (mesmo que não sinta dor alguma), rir em excesso só para causar ataques de riso alheios e se alimentar da sonoridade deles.
É coisa de cineasta franzir a testa e olhar para o infinito, em ato de quem desvenda os mais profundos mistérios existenciais e chega ao limite da eternidade, quando na verdade pensa "droga, esqueci a roupa no varal".
É coisa de Publicitário dar cores para pessoas, nomes para calçadas, olhar todas as coisas do mundo e repensá-las sempre com um "what if...?".
É coisa de maluco/poeta/dançarino/escalafobético correr pelado na rotatória, roubar sapo de jardim e deixar bilhete de resgate. Fazer o circo pegar fogo só pra assar o marshmello. É coisa de pelado roubar rotatória escalafobética e deixar poeta de jardim.
É coisa de piá mijar o nome na parede da freira/diretora; tentar descarrilhar o trem e depois chorar da possibilidade disso ter acontecido, matar o tempo matando vampiros e kobolds.

É coisa de nada deitar no meio da rua e esquecer dos carros.

É coisa de imortal descer a curva do diabo, na hora do rush, sem freios, com os pneus carecas e com um amigo histérico na garupa.
É coisa de Indiana Jones encher o porão de lava, não ter nenhuma calça isenta de buracos e colaborar com a troca de dentes da irmazinha.
É coisa de viajante intergalático em um universo paralelo procurar em cada livro seu passado, em cada filme seu futuro e em cada canção seu presente.
Coisa de perdido buscar em cada beijo o primeiro e o último.
É coisa de apaixonado dançar no chafariz, girar até cair, testar todos os colchões da loja de colchões, bater o carro todo dia.
É coisa de masoquista amar, e escrever é coisa de quem ama.



É coisa de "Pssoa" com Psi, sabe?
Tem certeza que sim?

sábado, 3 de janeiro de 2009

impronunciável


Deve haver uma palavra que


uma vez dita


transmita


tudo que já foi dito;



uma palavra que


uma vez dita


se repita


ao infinito.




Deve haver uma canção


que se dança de improviso,


que se entenda menos de ouvido


e mais de coração.




Deve haver uma palavra que


uma vez dita


traduza aflita


o coração profundo;



Uma palavra que


de tão bonita


uma vez só dita


mudará o mundo.








"shhh. Faz silêncio, ouve minha loucura..."

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Olhos

Quero apenas cinco coisas..

Primeiro é o amor sem fim

A segunda é ver o outono

A terceira é o grave inverno

Em quarto lugar o verão

A quinta coisa são teus olhos

Não quero dormir sem teus olhos.

Não quero ser... sem que me olhes.

Abro mão da primavera para que continues me olhando.

(Pablo Neruda)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

1/11

No primeiro dia de dezembro o fascínio dos dias primeiros não brilhou. Talvez por ser o último mês do ano a sensação de começo se apaga. É diferente de um 1/11, seqüência de primeiros, uma sinergia de números que traz a esperança do novo começo. Falsa esperança. Falsa não, palavra muito forte (na vida é necessário eufemismos para aliviar o peso de viver), dissimulada esperança. Oblíqua também não, pois o olhar revelou demais, mais que devia, mais que queria. Essa coisa de revelar deveria ser proibida e o segredo coroado como rei supremo, idolatrado, protegido, guardado, como uma dádiva, na palma da mão. Dádiva que virou ferida, beijo que virou mordida, coração que virou nada. E o punho se abre contrariado, mas o segredo permanece, não quer voar, cicatrizou e agora faz parte das linhas da vida, tão óbvia que até a mais fajuta das ciganas pode ler: “tem alguém na sua vida”, e arriscaria “uma loira”. A necessidade de credibilidade força a invenção de detalhes - caiu por terra o artifício da vigarista. Tão claro, tão fácil de ver, todos sabiam, todos desconfiam. O ator excêntrico não podia manter sua máscara pesada e elaborada demais por muito tempo. A leitura de mãos nada mais é que jogar um belo verde. Julgava-se tão bom nesse jogo que descobriu o que não queria, perdeu a aliada ignorância. Mas essa amiguinha um dia abandona a todos e vem a verdade egocêntrica em seu lugar. Arrogante estapeia a cara, toma tudo como seu, não vai embora, declara usucapião, não divide o aluguel e nem ajuda na louça. “Ah infeliz!” diriam os gregos, afinal, a verdade era o plot principal de suas tragédias.
“Far-te-ei agora algumas perguntas.”
“Pergunta, não serei por isso criminoso”... mas será Édipo, assim que conhecer a verdade. Conhece-te a ti mesmo. É fácil falar. Sócrates esqueceu que há verdades que não podem ser ditas, perguntas que são melhores sem respostas. Por que o pedido de um vale mais que o de outro? Por causa da palavrinha impronunciável que encerra em si o sentido do universo.
E por todas as impronunciabilidades que se escondem com o rosto afundado nas mãos.
Da janela do último andar dizem que se pode ver o universo refletido nos vidros espelhados, enquanto um canto caetano canta seus encantos. Não adianta descer as escadas, correr, se apressar para ver sua origem, a imagem real tem menos significado que seu reflexo. É um simulacro de si. “Dissimulada”, perdida, incompreendida. E permanecerá assim enquanto houver um coração e no coração razões que a própria razão desconhece.

Desde primeiro de novembro uma eternidade passou. Mas a eternidade não passa.
Novembro acabou. Mas novembro não acaba.
Não foi doce, foi amargo esse novembro e vai durar enquanto o novembro existir.
Esquecer é impossível, bem sabes. Esquecer nada mais é que lembrar de que não é permitido lembrar.
Esquecer é desejar escondido o impronunciável.
Um Pietro Belli se tranca no sótão, só sairá quando o violino parar e a dor passar.
E passa,
passa a todo instante.
Não pára,
para sempre passará.








Ai esse novembro que não passa!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

SEM


















para um amigo

Em lugar de carta, derradeiro esboço.
A vista opaca da sacada,
(ar) riscava o eterno moço
La vie
La mort
AZUL
desamparada.


Casagemas, lança fora a dor.
Desveste o corpo de tez pálida.
Não foi por falta de um amor (?)
Foi por outra falta,
Mais outra,
E outra,
Outra alma, árida.


Vertigem, grito sussurro soçobro socorro amparo desamparo desalento desacerto desespero desvario disparate devaneio devanei ode vanei o convênio incêndio indecência indecifrável indolor inodoro imperdoável cara choro cala coro cama conto cala fala acode acorde dorme sonha some sempre nunca pára onde para onde pára. Vertigem.
Clama todos para baixo. Quando se olha demais parece tão perto que não há porque não. Outralmárida.


E todo dia o menino fugia
Todo dia o menino voltava
Tanta liberdade queria
Que esqueceu onde morava


Fugiu o poeta
Prosélito de bares,
Fugiu o pintor
Traço de vertigem pelos ares
Fugiu o menino que fugia
Que cantava quintanares
Fugiu.


“Um outro mundo existe.., uma outra vida...
Mas de que serve ires para lá?
Bem como aqui, tu’alma atônita e perdida
Nada compreenderá...”



Último salto de liberdade.

Saudade.


segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um canto qualquer

Em uma esquina qualquer,
Em uma mesa qualquer,
Paira um assunto qualquer
Entre amigos, estes sim, únicos,
De quem só o bem se quer.

Eu nunca traí
[todos bebem, menos um (vai dirigir)
Eu nunca fui traído
[todos bebem, menos um
Eu nunca chorei por alguém
[todos, menos um
Eu nunca tomei a decisão certa
[todos, nenhum

Alguém imita um velho professor.
Alguém recita um poema.
Alguém receita um novo amor.
Alguém esquece um problema.

Peça mais uma porção de batatas,
De coraçõezinhos,
De memórias, estórias,
Saudades, maldades
nos comentários
E uma porção especial de idéias tão geniais quanto irrealizáveis.

Fique tranqüilo,
O som do devedê salvaguarda as confidências
Gritadas ao pé do ouvido,
(Filosóficas incoerências)
Olvidadas nas próximas rodadas por todos, menos um.

Tenho que dizer
Essa lua,
Esse conhaque,
Botam até o diabo comovido como a gente.

Eu amava,
Eu amei.
Eu ainda amo.
Eu não sei.

Todos choram,
Todos riem,
Todos bebem,
Menos um.

“Este aí não precisa de álcool”.

Todos voltam pra casa,
Menos um.
Todos caem no sono,
Menos um.

Dirige alheio à direção

Pelo pára-brisa-caleidoscópio,
Nasce sol por todo lado.
Reina agora o solilóquio.
Sóbrio, é o que mais ficou embriagado.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Detalhes

É um flash de memória.


É um riso familiar na platéia.


É um toque do telefone que se desliga infantilmente ao ser atendido.


É uma foto que se tira com os olhos, exposta na galeria da mente.


É um nascer do sol que não se viu em uma praia nublada.


É a noite em claro com amigos.




a caminhada na chuva.


o dia inteiro de pijamas.




e a maior dificuldade é saber se somos nós ou os detalhes que são mais importantes.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Passeio

O samba rolava solto pelas tantas da manhã, mas ela não saía por nada daquela cadeira, na ponta esquerda do salão. Já tinha recusado Jorge, Noel e até Cartola. Este último, com sua "Divina Dama", previa o que logo aconteceria (ou quem sabe foi o causador de tudo?).

"Atordoado fiquei
Eu dancei com você
Divina dama
Com o coração
Queimando em chama..."

Seu salto alto a incomodava. Pelo menos era o que seu gesto insistente de massagem nos pés esforçava-se para deixar claro. Com esse pretexto foi capaz de, até então, enganar vários pretendentes (cada vez mais insistentes), mas um ritmado tapear do pé esquerdo denunciava sua farsa. Talvez desejasse que a descobrissem, que alguém a puxasse a força para o meio da pista, recusando todas as suas desculpas, alguém merecedor de sua atenção. Não, nunca se permitiria a um pensamento tão soberbo. Se bem que um pouco de amor próprio não machuca ninguém.

“... Fiquei louco
Pasmado por completo
Quando me vi tão perto
De quem tenho amizade
Na febre da dança
Senti tamanha emoção
Devorar-me o coração..."

Recusou um último convite sem saber exatamente porque insistia em fazer aquilo. Estava lá pra dançar. Queria dançar, mas olhava desmotivada para aquele grupo desfoque de corpos. Uma bagunça. Sem perceber ajeitou o cabelo, uma mecha cobria seus olhos, ou foi um feixe de luz que passeou sobre seu rosto. Ela esperava.

"... Tudo acabado
E o baile encerrado
Atordoado fiquei
Eu dancei com você
Divina dama."

E esperava.
Subitamente Pixinguinha entra no palco. Sua flauta, doce, imediatamente flutua em sentido anti-horário pelo salão em um passeio ora despreocupado, ora apressado. Corre, gira, freia bruscamente, sobe em um looping perigoso e, como se em um ato deliberado, inconseqüente, acerta em cheio o grande globo de espelhos. Uma explosão de luzes coloridas, repletas do "olor da mais linda flor", brisa de Pixinguinha, desce (doce enlevo) sobre os casais. Lança-se, laça, entrelaça, envolve - revolve os pares pela pista.

A flauta acelera o passo, como se ansiosa por terminar seu solo. Voa desenfreada. Oscila indecisa, como o balão que se solta da mão da criança, sem que se tenha fechado o nó, e quer visitar todo o espaço antes de perder o seu ar, aproveitar a curta vida. A dama admira o rastro de fumaça incolor do vôo de Pixinguinha até o seu pouso final sobre um par de olhos perdidos, exatamente na ponta oposta do salão.


"Tu és..."

A multidão na pista fecha a sua visão. Ela nem percebe que está agora de pé buscando aqueles olhos, que pareciam, por sua vez, estarem em busca de algo, alguém. Quem parecia perdida agora era ela. Esticou-se inteira, quase subiu na cadeira, mas foi exatamente esse ímpeto absurdo que a trouxe de volta à consciência. Mas o que está acontecendo? Eu estou com o pé machucado, pensou enquanto sentava novamente.


"... do amor..."

Mergulhou o rosto nas mãos e segurou a respiração. Fantasiou que estava submersa na água, o pulsar da batida virou ondas suaves, lembranças da casa de praia. Afundava. Deixava-se calmamente afogar.
Uma figura parou a sua frente, convicta. Ou em atitude súplice?

"... Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente
de luz..."


Inconscientemente, ela aceita a mão salvadora que se estende pra ela e emerge daquele estado sonâmbulo. Afinal, ele a achara (ou foi ela?) e era merecedor - esforçava-se, com esse raciocínio, explicar a sua abrupta mudança de atitude, aquela facilidade em conceder a dança. O raciocínio durou pouco, logo estava entregue àquele passeio em um mundo misto de samba/valsa/poema. O tempo parou (embora, ao mais tarde recordar-se dos acontecimentos, nunca tenha passado com tanta pressa), só eles se moviam livres no espaço, presos um no outro. Braços, abraços. E...

"... Teu coração junto ao meu lanceado ..."

Era como se tudo acontecesse ao mesmo tempo: giro, olhar, passo, abraço, olhar, giro, passo. Abraços. O sopro da respiração "... Tu és..." no pescoço. "... de Deus a soberana flor..." O perfume.


"... Oh flor meu peito não resiste..."

Resiste. Resista! Quantas vezes já dançaram juntos? Uma amiga.
"... Tu és..."
Linda, quantos se apaixonam por ela a cada minuto?



"... Tu és..."
Resista. É seu amigo. Não é seu. É
"... tudo enfim que tem de belo..."


Deixavam-se levar em um perigoso jogo de faz de conta, camuflado sob o pretexto da interpretação, da emoção na dança (sempre um ótimo pretexto, quase uma convenção do universo dançante). Era só uma dança, um passeio. Depois daquilo tudo voltaria ao normal.

"... Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor..."

Mas passeavam por lugares nunca antes vistos. O caminho de volta, fragilmente marcado por migalhas, já fora devorado pelos pássaros logo na primeira estrofe.
E Pixinguinha, inconseqüente, sugeriu, em toda maldade, um último descontrole:

"... Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer..."

A música silenciou-se e uma versão frenética de "Brasileirinho" já ocupava o palco imaginário. Os dois se olhavam, parados exatamente no centro do salão, alheios ao mundo sambando à sua volta. As palavras de cartola ecoando ainda na mente:

Fiquei louco
Pasmado por completo
Quando me vi tão perto
De quem tenho amizade
Na febre da dança
Senti tamanha emoção
Devorar-me o coração
Divina dama.

Ela se aproximou, tímida, de seu rosto. Ele estremeceu ("Hei de envolver-te até meu padecer"). Ela beijou seu rosto e agradeceu a dança. Um cavalheiro qualquer já a puxara dele.
Tentou encontrar o caminho de volta, mas estava perdido. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou, não tinha salto alto como desculpa, mas nem precisava, a expressão alienada em seu rosto dizia tudo: ainda dançava, ainda não voltara do passeio. O estrago estava feito, nunca mais conseguiriam dançar juntos.

Daquele passeio, nenhum encontrou o caminho de volta.